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A Família e o Político

Na foto, Otavio Leite discursa em sua primeira campanha para vereador.

Há quem piamente acredite que o homem é aquilo que sua herança genética, “o seu sangue”, determina. Nessa linha, é muito comum se ouvir: “Fulano é médico, mas já estava no sangue, seu pai era médico, seu avô foi médico ...“ ; “Fulano é professor, mas já estava no sangue, seus avós, seus pais foram professores...”.

Para outros, como acredita o sociólogo Durkheim, o homem é simplesmente fruto do seu meio. Se colocado em determinado ambiente, fatalmente assimilará as características do meio. Por exemplo, se o homem habitar uma casa só de estudiosos em química, esse homem, muito possivelmente, desenvolverá aptidões e interesse pela química.

Sem querer me ater a concepções empiristas ou inatistas, devo dizer que cheguei à conclusão de que no meu caso, procedem as duas teorias. Porque não só influenciaram o sangue, a origem da participação política - meu avô, senador da República, meu pai, deputado, e outros parentes políticos – como também, e fundamentalmente, minha trajetória desde criança se caracteriza por um contato muito direto com os assuntos da política no dia-a-dia.

Morar na casa do meu avô com quatro tias politizadas contribuiu muito para a minha formação de homem público. Para se ter idéia, significava participar nas mesas de almoço e jantar de um cardápio, ora mais, ora menos temperado, mas invariavelmente recheado dos assuntos da política nacional. Além disso, era muito comum meu avô receber visitas, seja de políticos, seja de parentes, sempre para tratar e conversar sobre fatos políticos, do momento ou históricos. Confesso que ficava atraído e sempre de ouvidos abertos.

Meu avô era leitor fiel do Jornal do Brasil. Todas as manhãs, depois de cuidar carinhosamente de seus mais de vinte passarinhos, sentava-se para a leitura do jornal, e eu, em espreita silenciosa e explícita, aguardava a conclusão da primeira página e do seu verso. Ficava radiante, pois ele desmembrava o jornal e me entregava essa folha, o que me permitia saber sobre dois dos assuntos mais importantes, objetos da primeira página. No verso, passeava na política, onde figurava o Castelinho, jornalista políti­co, que aprendi a ler e, na última página, o esporte. Era de fato uma boa “sinopse” do dia.

Esse foi o ambiente em que cresci, permeado pelas coisas políticas. Conversava muito com as minhas tias, em especial, com a tia Aida casada com o deputado federal Airton Telles. Essa tia, por volta dos anos 80, aderiu ao Brizola, seguindo assim até seus últimos dias. Nesse contexto, bandear para as atividades da política orgânica foi um pulo.

No Colégio Andrews, como secundarista, lutamos para a organização do grêmio. Mauro Santa Cecília, poeta, autor de “Por Você”; Filipe Martins, ator; Mauricio Moreira, economista; Santa Albagri; Roberto Frejat, músico; Daniel Homem de Carvalho, advogado e professor; Marcelo Luiz da Motta Veiga, economista e muitos outros participaram dessa batalha.

Chegamos a editar um jornal no qual entrevistamos Barbosa Lima Sobrinho. Foi formidável! Naquela edição, escrevi um artigo versando e condenando o problema do terrorismo no mundo. A ilustração, sugerida por mim, embora não desenhasse, consistia na figura de um homem segurando uma bola (a Terra) que tinha um pavio aceso, pronto para  explodir. Na camisa do homem estava estampada a palavra terrorismo. Era época de Brigadas Vermelhas, Baader Meinhoff, ETA etc. Fui até meio mal interpretado por alguns colegas mais radicais. Mas, ali, esboçávamos os primeiros formatos do que seria as atividades da política estudantil. Participamos de algumas reuniões em defesa da Amazônia, pela demarcação das terras indígenas etc. Chegamos, inclusive, a participar de alguns movimentos pela anistia ampla geral e irrestrita.

Caminhei naturalmente para as idéias de esquerda, ali representadas pela contestação ao regime militar e pela luta por um estado de direito democrático. Veio a anistia. O MDB, em nível nacional e em meio aos estertores do bipartidarismo, era tido como referência de combate à ditadura. No Rio, no entanto, era diferente, pois o MDB fluminense era muito palatável ao Planalto. Além do mais, foi aqui que o Brizola resolveu reiniciar sua carreira política (“pois foi aqui que a interromperam”, dizia). Simplesmente, Brizola atropelou tudo aquilo, expressando, com sua insuperável consistência retórica, tudo o que o povo queria ouvir e dizer.

Para ilustrar tal quadro, vale lembrar que o MDB do Rio de Janeiro era dominado pelo ex-governador Chagas Freitas que, a essa altura, já havia engolido o grupo do Amaral Peixoto, desde a fusão, em 1975. Na verdade, a fusão teve objetivo meramente político, porque o MDB vinha ganhando da Arena, em número de deputados na Guanabara e no antigo Estado do Rio de Janeiro. Em 1974, isso ficou perfeitamente demonstrado com a eleição dos senadores do MDB pelo país afora. Tanto é que Saturnino Braga, numa eleição posta como impossível contra Paulo Torres, foi eleito senador pelo antigo Estado do Rio.

O fato é que as opções políticas de que se dispunha, àquela época, era o grupo autêntico do MDB - o resquício do pessoal do Partidão, do MR-8 e de outros grupos oriundos da luta armada -, o PT, que dava seus primeiros e sectários passos, refletindo o estilo sindicalista do ABC, e uma terceira vertente que era o Brizola, tentando reconquistar o PTB, no que foi impedido pelo general Golbery.

Àquela altura, em 1978, eu já havia participado de uma campanha para deputado federal, a do respeitado ex- vereador José Frejat, que conheci através de seu filho, Roberto Frejat. Fizemos panfletagens em ônibus e na Feira da Providência e fiquei muito feliz por ele ter sido um dos mais votados. Logo em seguida, Frejat se engajaria nas hostes de Brizola e me convidaria para entrar no PDT. Naquele instante, recusei, embora tenha aderido depois à campanha do Brizola, em 1982.

O Brizola, realmente, cativava a todos. Um dos fatores que me motivou a lhe dar apoio foi quando participei, no Teatro Ipanema, de uma palestra, com os colegas Daniel Homem de Carvalho e Edgar Arruda, que veio a ser jornalista do O Globo. Na parte das perguntas, indaguei o que ele achava da socialização dos meios de produção. Brizola respondeu exatamente o que eu esperava: “O Estado não tem de ser dono do botequim, das empresas, mas tem de entrar como fator de indução ao crescimento, e ser vanguarda no campo social...” Uma visão morena e protetora dos interesses nacionais, essencialmente “keynesiana”.

Embora já militante na prática, demorei a entrar no partido, oficialmente. Muito me marcara uma passagem em que Luiz Carlos Prestes dizia: “...entrar num partido é tão importante quanto o ato de casar. E já que o casamento é algo para o resto da vida, o partido também deveria ser um contrato, um compromisso para o resto da vida “. De fato, segundo consta, foi necessário o assédio por mais de dois anos de teóricos marxistas internacionais, para que o “Cavaleiro da Esperança” decidisse entrar no Partido Comunista.

Seguramente, não me cabia o papel de rebelde sem causa. Eu não só tinha causa e como também não sofri qualquer cerceamento.  É imperioso ressaltar uma questão: meu avô foi senador pelo Partido Republicano, e depois pela Arena. Não há, no entanto, nenhum registro de ele ter conspirado a favor dos militares, nem muito menos de ter compactuado com perseguições, torturas, ou coisas do gênero... Sempre foi um industrial liberal, com forte compreensão social. Os efeitos dessa postura política pude comprovar por mim mesmo, porque nas minhas bravatas, nos meus desafios, nos meus engajamentos, em especial com o Brizola - naquele instante, ainda muito temido - em nenhum momento, ouvi do meu avô qualquer palavra de desaconselhamento, qualquer ponderação para  me desviar do caminho que eu havia escolhido. Pelo contrário! Sempre compreendeu e respeitou minhas posições, estimulando, assim, minha absoluta liberdade para agir como bem minha consciência determinasse.