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Aprendendo a Fazer Política

Na foto, Otavio Leite dá os primeiros passos na política: o movimento estudantil.

Sem querer ser piegas, tampouco politicamente correto, quem me conhece sabe que estou falando a verdade: procuro cultivar a humildade. Tanto é que, filosoficamente, gosto de repetir a assertiva: "Quanto mais se aprende, mais se percebe o quão ignorante se é".

Os primeiros passos de um aprendizado politico mais efetivo se dão com a prática da política. Devo dizer que não tive um preceptor propriamente dito, ou mesmo alguém me instruindo, "faça isso, faça aquilo..." Sempre vivi o desafio de estabelecer e escolher o passo a dar. Logo, se por um lado, a incipiência esteve presente em algumas atitudes minhas, por outro lado, as conseqüências advindas foram me despertando, me ajudaram a abrir mais os olhos. Evidentemente, hoje enxergo a política com maior capacidade de diagnóstico e de compreensão dos fatos.

Há dois grandes laboratórios, no entanto, no meu aprendizado. O primeiro, o movimento estudantil no Centro Acadêmico Luiz Carpenter, nosso glorioso e saudoso CALC, da Faculdade de Direito da UERJ. O segundo, a política partidária. Essas experiências, em determinado instante, se somam, pois, como veremos adiante, o microcosmo da faculdade possuía todos os aspectos e fatos típicos da macropolitica. Afinal, nossas atitudes eram presididas pela disputa do poder, a maioria delas, vitoriosa. Um lapso foi não termos acatado a luminosa sugestão de Paulo Nonato para nos associarmos ao Centro Acadêmico da Medicina, e conquistarmos o DCE contra todas as forças políticas estudantis de então.

Já no segundo período da faculdade, fui eleito presidente do CALC. Havia dois grupos que se digladiavam. Um, ligado ao PT; outro, à chamada Reforma, o PCB. Organizamos um terceiro grupo de alunos dos primeiros períodos - Paulo Henrique Nonato, Bruno Chevalier, Daniel Homem de Carvalho, Augusto Werneck, Ilcilene Bottari, Ricardo Tepedino, Silvia Pinheiro, Eduardo Coutinho, José Eduardo (Zequinha), Junia Bonfanti; depois, chegaram Arlindo Daibert, Claudío Mendonça, Marcos Pinheiro de Lemos, Daniela Bessoru, Felipe Negrão, Celso França, mais Claudia Duranti, Pedro Elias Sanglard, Rogério Rebouças, MacDonald Medina e outros tantos - e conseguimos o apoio dos formandos do quinto ano. Essa união entre os que estavam saindo da faculdade e os que estavam entrando foi suficiente para ganharmos a eleição com uma chapa chamada "Alternativa". Foi um período extremamente fértil. De 1982 a 1985, o meu dia-a-dia era de dedicação plena à faculdade. Fui presidente durante um ano, e mantivemos um comando político durante um bom tempo na faculdade, inclusive depois que saímos, pois nossos sucessores eram egressos das nossas hostes.

Na foto, Otavio Leite dá os primeiros passos na política: a política em campo.

Foram tempos de intensa participação política. Tínhamos uma característica diferente do movimento estudantil de então, ainda muito influenciado por jargões. O governo Figueiredo se iniciara: abertura democrática a qualquer preço, "prendo e arrebento". Nós olhávamos para a frente e queríamos ocupar espaços. Em nossa filosofia de trabalho procurávamos ter receita. E as obtínhamos através da realização de seminários e simpósios, que contavam com a participação dos maiores nomes do Direito, muitos dos quais nossos docentes. Com essas verbas realizávamos grandes eventos festivos, desportivos e acadêmicos. Além de custearmos o jornal "Falo da Lei" (título sugerido pelo Werneck), ajudávamos nas despesas das greves na Faculdade de Serviço Social, e chegamos até mesmo a viabilizar um jornal da oposição! No movimento estudantil éramos patrulhados como "empresariais". No fundo, o fato é que conseguimos implantar uma nova visão administrativa no movimento estudantil, sem nos afastarmos das grandes e vigorosas lutas acadêmicas e políticas.

Um episódio exemplar foi a saga para reaver a linha telefônica do nosso Centro Acadêmico Luiz Carpenter. Os advogados foram o ministro Aguiar Dias, depois, seu filho Rui Dias, professor da Casa, além do grande Evaristo de Moraes. É imperioso ressaltar também a participação decisiva do professor e então juiz de direito Luiz Fux - hoje ministro do STJ - em prol dos estudantes. Nossa defesa e compreensão tinham abrigo permanente também nas atitudes de nosso mestre, Professor Ricardo Lyra, um homem de sólida presença democrática e inabalável saber jurídico, respeitado por todos.

O fato é que, na faculdade, travamos lutas formidáveis e já não cabia apenas bradar: "Abaixo a ditadura". A palavra de ordem, no nosso entendimento, era "melhoria da qualidade de ensino". Realizamos, por exemplo, uma inesquecível manifestação no dia 11 de agosto (dia da fundação dos cursos jurídicos no País), depois de termos reinaugurado o "Dia do Pendura", para protestarmos, no hall da faculdade repleto, contra a Lei de Segurança Nacional e contra o positivismo jurídico, reivindicarmos um ensino progressista e coisas do gênero. Para conferir um tempero heterodoxo ao prestigiado evento - todas as turmas estavam lá - levamos meia dúzia de galinhas que, em nossos braços, subiram ao palanque (mesas), e ouviram irracionalmente a seqüência de acalorados discursos, em geral, protestando contra tudo e contra todos. E houve quem dissesse, dada a magnitude de nosso protesto, que aquele era o dia mais importante na vida daquelas galinhas...

Foi um período de profunda dedicação. Pela manhã, a faculdade, de moto; à tarde o estágio, na Confederação Nacional da Indústria (convivia com meu primo e amigo André Ribeiro, que, "por osmose" se inseria nesse contexto), e, à noite, voltava à faculdade para fazer política. Sábado e domingo, invariavelmente, participávamos de alguma atividade política estudantil. Ao sabor da presença do Brizola, e depois filiado ao PDT, passei a participar mais ativamente das atividades partidárias.

No fundo, foram tempos de grande laboratório de experiências políticas e aprendizado de vida.