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Conhecendo o Rio e sua Realidade

Na foto, quando vereador, Otavio Leite inspeciona as obras da 1ª etapa do Favela-Bairro.

As ruas, as esquinas são fatores importantíssimos na minha formação de cidadão do Rio de Janeiro. Morador de Copacabana, estudando em Botafogo, com todo um conjunto de amizades espalhado pela Zona Sul, sempre desfrutei de liberdade - desde que estivesse bem nos estudos - para interagir nos espaços urbanos. Por exemplo, aos oito anos ia para o colégio sozinho. Antes disso, quem me levava era o porteiro do prédio, "seu" Zé, um simpático alagoano. Sempre caminhei muito com os amigos da esquina pelas ruas do bairro, sempre explorei muito o contexto urbano na convivência com pessoas.

Obviamente, Copacabana é um retrato pontual da megalópole Rio de Janeiro. Creio que daí deriva a minha afinidade com os espaços abertos e, talvez, resida a essência do que considero elemento fundamental para a vida evolutiva, e se possível, feliz em uma cidade, que é o contato compulsório e complementar entre pessoas, a representar exatamente o produto da vida coletiva. Lamentavelmente, esse meu conceito está profundamente prejudicado com os brutais índices de violência que amedrontam e inibem as pessoas.

Ainda, ao tempo do colégio, tive o primeiro contato com uma comunidade favelada, o Morro do Pau da Bandeira, em Vila Isabel, por conta do pai de um fraterno amigo, Daniel Homem de Carvalho. O Dr. Adolfo era, naquela ocasião, muito articulado com as escolas de samba, em especial, com a Vila. Participamos de uma festa comunitária com direito a pagode, samba no pé, teatro e feijoada. Foram marcantes para mim a alegria reinante e assistir o anoitecer de cima do morro.

Assim que entrei na faculdade, estagiei no projeto que a Secretaria Municipal de Desenvolvimento Social desenvolvia para levantamento sócio-econômico das comunidades. Coube o meu grupo trabalhar na Favela Nova Brasília, no Complexo do Alemão. Durante alguns meses, por duas ou três vezes na semana, passávamos a tarde inteira entrevistando a população local, casa a casa.

Essas foram duas introduções importantes no meu contato com a cidade e sua face mais oprimida. Ainda como estudante, já trabalhando na assessoria do Prefeito Marcello Alencar, naquela sua primeira passagem pela Prefeitura, me engajei em sua frenética disposição para percorrer os mais variados bairros, em especial os da Zona Oeste da cidade, objeto de uma dedicação especialíssima. Não fora isso, em 1986, Marcello viria a ter uma votação estrondosa para o Senado, na Zona Oeste, por ter sido efetivamente um prefeito dedicado àquela área.

Mas a grande oportunidade de mergulhar de vez nos problemas do Rio de Janeiro (de Santa Cruz a Ipanema) se deu em 1989, quando assumi a coordenação das Regiões Administrativas, cuja tarefa era supervisionar o trabalho dos trinta administradores regionais da Cidade. Essa fase requereu dedicação profunda, não ter hora para chegar nem para sair, não ter fim de semana, usar o telefone mais de cem vezes ao dia e despachar, diariamente, algumas dezenas de processos.

Um ano e pouco depois, assumi a Secretaria Municipal de Governo. Mas a ousadia do Prefeito não contava só comigo. Era parte integrante dela um grupo de jovens oriundos do PDT, alçados à administração pública, que incluía Augusto Werneck, Santiago Pereira Nunes, Maneco Muller Filho e outros, intitulados pela imprensa - e badalados pelo homem da noite, Ricardo Amaral - como "Os Menudos do Marcello".

O trabalho, além desses aspectos burocráticos, era essencialmente de campo. Permanentemente, rodava as áreas da Cidade visitando as RA's. Fui incumbido de organizar as famosas "Prefeituras Itinerantes", característica do segundo governo de Marcello Alencar. Chegamos a organizar mais de cento e sessenta roteiros de prefeituras itinerantes!

Era uma responsabilidade enorme já que o Prefeito procurava se deslocar com a sua equipe por regiões específicas da Cidade, e as demandas evidentemente já eram - e atualmente, são mais ainda - muito maiores do que a capacidade de investimento. Mas o fato é que, ao visitar uma comunidade que, por exemplo, apresentasse quatro problemas, o prefeito batia o martelo no equacionamento de pelo menos uma das reivindicações.

Foi um período fertilíssimo para um profundo conhecimento da vasta dimensão física do Rio de Janeiro, não só de suas características sócio-econômicas profundamente distintas, mas de suas circunstâncias culturais, também diferenciadas, e dos estilos de vida específicos. Essa fase consistiu para mim em um verdadeiro laboratório de experiências, de observações do contexto social, econômico e cultural do Rio de Janeiro.

Acredito que aí esteja a gênese, de ter sido, como alguns disseram à época, um dos últimos dos "moicanos" na Câmara, isto é, aqueles vereadores que não são eleitos por uma região especificamente. Minha votação sempre se caracterizou por reunir eleitores de toda a Cidade, de Santa Cruz à Copacabana. À guisa de ilustração, basta dizer que, na eleição de 2001, das nove mil urnas da Cidade, só não fui votado em cem delas, numa região em que, evidentemente, passei ao largo durante a campanha, a região de Pavuna e de Ricardo de Albuquerque.

Isso confirma o raio de minha atuação política, sempre de acordo com meu objetivo de ter uma visão ampla da Cidade.

Quando se discute o orçamento da Cidade, e um vereador luta só pela sua região, concordo que ele esteja cumprindo o papel que escolheu. Por outro lado, entretanto, há necessidade de vereadores que pensem no conjunto, à medida que diante da limitação de recursos, é preciso definir prioridades com equilíbrio. Sou partidário, inclusive, baseado nessa compreensão, do voto distrital misto. Ou seja, metade dos vereadores deveria ter características locais, e a outra, seria formada por vereadores de propostas mais gerais. O eleitor, então, votaria duas vezes.

A rigor, é certo que optei por um caminho mais difícil e mais complexo, mas é o único que me permite trabalhar politicamente a cidade como um todo, do ponto de vista geográfico.

A essa visão de trabalho, associou-se outro aspecto muito nítido na minha apresentação como homem público, que foi o ter abraçado bandeiras, tais como a defesa dos portadores de deficiência e o desenvolvimento do turismo, o que me permite entrar eleitoralmente em áreas tidas como cidadelas indevassáveis, por conta de vereadores que se proclamam senhores feudais de um bairro. Em certas situações, porém, uma família que inclua um portador de deficiência pode me ajudar a romper completamente essas barreiras e ali instalar um núcleo de apoio. Ou mesmo o setor do turismo, que ao contrário do que muitos pensam, não se restringe eleitoralmente à Zona Sul: não custa lembrar que muitos funcionários de hotéis e de agências de viagem moram em outras regiões da Cidade.

Em suma, esta trajetória de contato estreito com a Cidade me levou a uma tipificação de trabalho político geral, não restrito a uma área específica da cidade, o que vem me assegurando condições de enxergar o Rio como um todo. Somando-se a isso, as bandeiras que defendo também prescindem dessa mesclagem geográfica.